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domingo, 23 de maio de 2010

O QUE É PENTECOSTES?

O que a festa de Pentecostes e a Copa do Mundo de 2002 têm em comum? Foi nessa Copa que o Brasil conquistou seu quinto título mundial e se tornou pentacampeão. Não precisa ser "doutor" para perceber que "pentacampeonato" e "pentecostes" começam com o prefixo "penta", que em grego designa o número cinco. 

No caso de Pentecostes, o prefixo remete mais precisamente ao número cinquenta. A festa de Pentecostes foi inicialmente celebrada pelos judeus para comemorar os frutos das colheitas, depois do 50º dia da Páscoa. Depois, se tornou a festa da aliança do Monte Sinai, quando Deus entregou a Sua lei para o povo de Israel, que peregrinava no deserto.

A Igreja comemora nesse dia a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos, cinquenta dias após a Ressurreição de Jesus Cristo. “Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem” (At 2, 1-4).

O Espírito de Deus havia sido negado ao povo israelita após o culto ao bezerro de ouro. Ele se tornou um privilégio dos profetas. Os judeus esperavam que com a vinda do Messias, o Espírito de Deus fosse derramado novamente e fizesse de Israel uma nação de profetas.

Nesse sentido, a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos tem um significado muito especial para nós cristãos (Catecismo da Igreja Católica, 731-732):

• O cumprimento total da Páscoa de Jesus Cristo: a nova Aliança com os homens. Deus fez uma aliança eterna com cada um de nós, uma aliança de amor e fidelidade. O Espírito Santo é a garantia dessa fidelidade e amor. 

• O Espírito Santo é manifestado, dado e comunicado como Pessoa Divina. Ele não é mais um “ilustre desconhecido”. Ele está presente em nossas vidas e nós podemos ter uma relação de íntima amizade com Ele. Por isso, devemos invocá-lo em meios aos sofrimentos e lutas dessa vida: “Vinde, Espírito Santo!”

• O Senhor Jesus derrama o Espírito Santo em abundância sobre cada um de nós. Todos somos profetas de Deus, pois “Cristo, derrama (o Espírito Santo) nos Seus membros para os alimentar, curar, organizar nas suas mútuas funções, vivificar, enviar a dar testemunho e associar à Sua oferta ao Pai e à Sua intercessão pelo mundo inteiro” (CIC 739). O Espírito Santo é nosso defensor, guia e companheiro de caminhada. 

• O Reino anunciado por Jesus está aberto para todos os que creem n’Ele. As portas do Céu estão “escancaradas” para nós, e agora temos que fazer a nossa parte: crer, confiar e amar a Deus.

Por isso, é preciso celebrar com muita alegria essa festa tão importante para a Igreja, muito mais importante que o pentacampeonato mundial. E a melhor maneira de festejá-la é cultivar a nossa amizade com o Espírito Santo, especialmente através da oração. Por exemplo, podemos pedir o Seu conselho durante o dia, ou apenas invocá-lo amorosamente no silêncio do nosso coração, “Vinde, Espírito Santo!” A Igreja ensina que graças a essa força do Espírito, os filhos de Deus podem dar muitos frutos em suas vidas (CIC 736).

“Também o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos o que pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26).

PAPA: O ESPÍRITO SANTO SUPERA MUROS E BARREIRAS

Cidade do Vaticano, 23 maio de 2010



"Na celebração de Pentecostes, somos convidados a professar a nossa fé na presença e na ação do Espírito Santo" – com esta síntese da solenidade que conclui o tempo pascal, teve início a homilia pronunciada por Bento XVI esta manhã, na Basílica de S. Pedro.

O Espírito Santo, recordou o pontífice, é o dom que Jesus pediu e continuamente pede ao Pai por seus amigos; o primeiro e principal dom que nos obteve com a sua Ressurreição e Ascensão ao Céu. Este dom produz unidade e compreensão: "Inicia-se um processo de reunificação entre as partes da família humana, divididas e espalhadas; as pessoas, muitas vezes reduzidas a indivíduos em competição ou em conflito entre si, alcançadas pelo Espírito de Cristo se abrem à experiência da comunhão, que pode envolvê-las a tal ponto de fazer delas um novo organismo, um novo sujeito: a Igreja. Este é o efeito da obra de Deus: a unidade".

Desde o início, desde o dia de Pentecostes, explicou o Papa, a Igreja fala todas as línguas. Ela jamais permanece prisioneira de confins políticos, raciais e culturais; não se pode confundir com os Estados e deve permanecer autônoma. Por sua natureza, a Igreja é una e multíplice, destinada a viver em todas as nações, todos os povos, nos mais diferentes contextos sociais. O Espírito Santo envolve homens e povos e, através deles, supera muros e barreiras.

Todavia, esta unidade criada pelo Espírito Santo não significa uma espécie de igualitarismo. Pelo contrário. Em Pentecostes, os Apóstolos falam línguas diferentes de modo que cada um compreenda a mensagem no próprio idioma. Às Igrejas particulares, porém, cabe a missão de se confrontar e se harmonizar com a Igreja una e católica.

A seguir, Bento XVI falou do fogo, a maneira como o Espírito Santo se manifesta – fogo como chama divina que ilumina a estrada da humanidade. "Como é diferente do fogo das guerras e das bombas!" – comparou o pontífice. "Como é diferente o incêndio de Cristo, propagado pela Igreja, em relação ao fogo aceso pelos ditadores de todas as épocas, inclusive do século passado, que deixa um rastro de destruição. O fogo de Deus, o fogo do Espírito Santo, ao invés, arde sem queimar, sem destruir, e, ao se propagar, faz emergir a parte melhor e mais verdadeira do homem, a sua vocação à verdade e ao amor.

No íntimo do homem, o fogo provoca uma transformação, consumando as escórias que o corrompem e dificultam sua relação com Deus e com o próximo. Paradoxalmente, observa o pontífice, este efeito divino nos assusta, temos medo de nos "queimar", e escolhemos permanecer como somos. Isso depende do fato de que muitas vezes a nossa vida é marcada pela lógica do ter, do possuir, e não do doar-se. Muitas pessoas crêem em Deus e admiram a figura de Jesus Cristo, mas têm medo das exigências da fé, de renunciar a certas experiências, a algo de belo.

Para quem vive esta divisão, o Papa repete o que Jesus dizia aos seus amigos: "Não tenham medo". Devemos deixar que a presença de Cristo e a sua graça transformem o nosso coração, sempre sujeito às fraquezas humanas. "Vale a pena deixar-se tocar pelo fogo do Espírito Santo. A dor que provoca é necessária para a nossa transformação."

Fonte: Rádio do Vaticano

Domingo de Pentecostes

SEQUÊNCIA DE PENTECOSTES

Vinde, ó Santo Espírito,
vinde, Amor ardente,
acendei na terra
vossa luz fulgente.

Vinde, Pai dos pobres:
na dor e aflições,
vinde encher de gozo
nossos corações.

Benfeitor supremo
em todo o momento,
habitando em nós
sois o nosso alento.

Descanso na luta
e paz encanto,
no calor sois brisa,
conforto no pranto.

Luz de santidade,
que no Céu ardeis,
abrasai as almas
dos vossos fiéis.

Sem a vossa força
e favor clemente,
nada há no homem
que seja inocente.

Lavai nossas manchas,
a aridez regai,
sarai os enfermos
e a todos salvai.

Abrandai durezas
para os caminhantes,
animai os tristes,
guiai os errantes.

Vossos sete dons
concedei à alma
do que em Vós confia:

Virtude na vida,
amparo na morte,
no Céu alegria.



Dos escritos dos Padres da Igreja

O Espírito da Verdade vos conduzirá à verdade plena.

Amados filhos, os corações de todos os católicos reconhecem que a hodierna solenidade deve ser venerada dentre as principais festas. Sem dúvida, uma grande reverência inspira este dia consagrado pelo Espírito Santo com o extraordinário milagre do dom que ele fez de si mesmo. Com efeito, é o décimo dia depois que o Senhor subiu ao mais alto de todos os céus para se assentar à direita de Deus.
Este dia refulge também como o qüinquagésimo depois da ressurreição, seu ponto de partida, encerrando grandes mistérios dos antigos e dos novos sacramentos, que demonstram claramente ter sido a graça prenunciada pela Lei e a Lei cumprida pela graça.
Como atestam os Atos dos Apóstolos, quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído como de um forte vento, que encheu a casa em que estavam sentados. Então apareceram línguas como que de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia expressar-se (At 2, 1-4). Como é veloz a palavra da Sabedoria! E onde Deus é mestre, quão depressa se aprende o que é ensinado! Não houve necessidade de tradução para ser entendida, nem de prática para ser utilizada, nem de tempo para ser estudada. Mas, pela ação do Espírito que sopra onde quer (cf. Jo 3, 8), as línguas próprias de cada povo se tornaram comuns, começando então a ressoar pelo mundo inteiro a pregação do Evangelho.
Desde esse dia, uma chuva de carismas e rios de bênçãos irrigaram todo deserto e toda terra árida, pois, a fim de renovar a face da terra, o Espírito de Deus pairava sobre as águas (Gn 1, 2). E para dissipar as antigas trevas, cintilaram os fulgores de uma nova luz quando, pelo esplendor das línguas refulgentes, foi concebida a palavra luminosa do Senhor, palavra de fogo, possuidora de eficácia e de força para queimar, despertando a capacidade de compreensão e consumindo o pecado.
Amados filhos, a própria forma do acontecimento foi admirável, e, sem dúvida, naquela harmonia exultante de todas as vozes humanas, estava presente a majestade do Espírito Santo; mas, ninguém pense que sua substância divina tenha aparecido nos fatos vistos com os olhos do corpo. A natureza invisível, igualmente comum ao Pai e ao Filho, mostrou a qualidade de seu dom e de sua obra
através do sinal que quis. No entanto, manteve oculto em sua divindade o que é próprio de sua essência. Pois, assim como o Pai e o Filho não podem ser alcançados pelo olhar humano, assim também o Espírito Santo.
Nada na Trindade divina é dessemelhante, nada é desigual, e todos os atributos que se podem pensar a respeito de sua substância em nada se distinguem, nem pelo poder nem pela glória nem pela eternidade. Quanto às propriedades das Pessoas, um é o Pai, outro é o Filho e outro é o Espírito Santo; todavia, a divindade não é diferente, nem é diversa a natureza. Do Pai é o Filho Unigênito, e o Espírito Santo é o Espírito do Pai e do Filho, não, porém, como qualquer criatura que pertence ao Pai e ao Filho, mas enquanto com ambos vive e possui o poder, subsistindo eternamente naquilo que é o Pai e o Filho.
Por isso, o Senhor, na véspera de sua paixão, prometendo a seus discípulos a vinda do Espírito Santo, afirma: Tenho ainda muitas coisas a vos dizer, mas não sois capazes de compreender agora. Quando ele vier, o Espírito da Verdade, vos conduzirá à verdade plena. Ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará até as coisas futuras. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso, eu vos disse que ele receberá do que é meu para vos anunciar (Jo 16, 12-13.15).
Isso não significa que algumas coisas pertençam ao Pai, outras ao Filho e outras ao Espírito Santo, mas tudo o que o Pai tem, o Filho igualmente tem, e o Espírito Santo também tem. Na Trindade sempre houve esta comunhão, porque nela tudo ter é o mesmo que sempre existir. A seu respeito, não se insinue na mente noção alguma de tempo, grau ou diferença; e se ninguém pode explicar o que é Deus, ninguém ouse afirmar acerca dele o que não é. É mais desculpável não falar da natureza inefável o que ela merece, do que atribuir-lhe o que é contrário.
Tudo o que os corações piedosos puderem conceber sobre a eterna e imutável glória do Pai, devem compreendê-lo como inseparável e sem distinção tanto do Filho como do Espírito Santo. Por conseguinte, proclamamos que a bem-aventurada Trindade é um só Deus, porque nas três Pessoas não há diferença alguma de substância, de poder, de vontade ou de ação.
(Dos Sermões de São Leão Magno, papa Tractatus 75, 1-3 –
Corpus Christianorum Latinorum 138 A, 465-468)


Realiza-se em vós o que foi prenunciado nos dias da vinda do Espírito Santo

Irmãos, despontou para nós o dia feliz em que a Santa Igreja brilha nos rostos dos fiéis e se abrasa em seus corações. De fato, estamos celebrando o dia em que o Senhor Jesus Cristo, glorificado pela ascensão depois que ressuscitou, mandou à terra o Espírito Santo. Efetivamente, está escrito no Evangelho: Se alguém tem sede venha a mim e beba. Quem crê em mim, de seu seio jorrarão rios de água viva. E prosseguindo o evangelista explica e afirma: Ele falava do Espírito que deviam receber os que nele cressem; pois não havia ainda Espírito, porque Jesus não fora ainda glorificado (Jo 7,37-39). Estava pois faltando agora que Jesus, já glorificado, após ter ressuscitado dos mortos e subido ao céu, mandasse o Espírito Santo. Enviá-lo-ia aquele que o prometera. E foi assim que aconteceu.
Depois de ter passado quarenta dias com seus discípulos, subiu ao céu o Senhor ressuscitado. E no qüinquagésimo dia, que hoje celebramos, enviou o Espírito Santo, como está escrito: De repente, veio do céu um ruído semelhante ao soprar de impetuoso vendaval. E apareceram umas como linguas de fogo, que se distribuiram e foram pousar sobre cada um deles. E começaram a falar em outras linguas, conforme o Espírito os impelia a falarem (At 2,2.3.4).
Aquele vento purificava os corações da palha da carne. Aquele fogo consumia o fogo da velha concupiscência. Aquelas linguas faladas pelos que estavam repletos do Espírito Santo prefiguravam a futura Igreja, que haveria de estar entre as linguas de todos os povos. De fato, após o dilúvio, a impiedade soberba dos homens construiu uma torre elevada contra o Senhor, e o gênero humano mereceu ser dividido em linguas diversas, começando cada povo a falar sua lingua para não ser entendido pelos outros povos. Agora, ao invés, a humilde piedade dos fiéis recolheu a diversidade destas linguas na unidade da Igreja, onde a caridade reuniu aquilo que a discórdia tinha espalhado. E os membros dispersos do corpo humano, como membros de um único corpo, voltam a ser unificados na única cabeça que é Cristo, fundidos na unidade de seu santo corpo pelo fogo do amor.
Por isso são inteiramente estranhos ao dom do Espírito Santo os que odeiam a graça da paz e não conservam a comunhão e a unidade. E, embora também eles hoje se reúnam solenemente e ouçam estas leituras em que se fala da promessa e da vinda do Espírito Santo, ouvem-nas como condenação e não como prêmio. Pois de que lhes serve ouvir com os ouvidos aquilo que rejeitam com o coração e celebrar o dia cuja luz odeiam? Vós, porém, irmãos, membros do corpo de Cristo, germes de unidade, filhos da paz, celebrai este dia alegres, celebrai-o seguros. Porque em vós se realiza aquilo que era prefigurado nos dias em que veio o Espírito Santo. Porque, como outrora quem recebia o Espírito Santo, embora fosse um homem só, falava todas as linguas, assim agora fala todas as linguas, através de todos os povos, a própria unidade. Estabelecidos nela, possuis o Espírito Santo, os que não estais separados por nenhum cisma da Igreja de Cristo que fala todas as linguas.
(Dos sermoes de Santo Agostinho, Bispo - Sermão 271)